Protocolos acelerados de estimulação magnética para depressão bipolar

Os protocolos acelerados de estimulação magnética também estão sendo estudados para o tratamento da depressão bipolar.

Resumo dos estudos sobre protocolos acelerados de estimulação magnética para depressão bipolar
Estudo Desenho Protocolo Resultado
Sheline et al., 2024 (JAMA Psychiatry) Randomizado, controlado por sham, 24 pacientes com depressão bipolar resistente 10 sessões/dia × 5 dias (50 sessões, 90.000 pulsos); alvo individualizado por ressonância magnética funcional Resposta de 67% vs. 8% (sham) e remissão de 50% vs. 0%; sem mania ou hipomania
Universidade da Califórnia, 2025 (JAMA Network Open) Randomizado, controlado por sham, 13 pacientes (5 ativo, 8 sham) 10 sessões/dia × 5 dias (50 sessões, 90.000 pulsos); alvo individualizado por ressonância magnética funcional Resposta de 60% vs. 12,5% (sham), sem significância estatística; sem mania ou hipomania
Estudo-piloto, 2026 (Bipolar Disorders) Aberto, sem grupo controle, 8 pacientes 8 sessões/dia × 5 dias (40 sessões, 72.000 pulsos); alvo pelo método Beam F3 HDRS-17 de 22,9 para 11,1 na segunda semana; sem significância estatística aos três meses
Protocolo SAINT Aberto, sem grupo sham, 10 pacientes com transtorno bipolar tipo I 10 sessões/dia por até 5 dias (50 sessões, 90.000 pulsos); alvo individualizado por ressonância magnética funcional Resposta de 50% e remissão de 40% ao final; 60% em remissão no mês seguinte; sem mania ou hipomania

Estudo randomizado de Sheline e equipe (2024)

Em 2024, um ensaio clínico randomizado, publicado no JAMA Psychiatry, por Sheline e equipe, avaliou 24 pacientes com depressão bipolar resistente ao tratamento.

Os participantes receberam dez sessões de theta-burst intermitente (iTBS) por dia, durante cinco dias, totalizando 50 sessões e 90.000 pulsos. O alvo da estimulação foi individualizado por meio de ressonância magnética funcional e análise da conectividade cerebral.

Ao fim do tratamento, a redução dos sintomas depressivos foi significativamente maior no grupo que recebeu a estimulação ativa em comparação ao grupo sham. A resposta clínica ocorreu em 67% dos pacientes do grupo ativo, contra 8% no grupo sham, ou seja estimulação simulada, enquanto a remissão foi observada em 50% e 0%, respectivamente.

67%

Resposta clínica no grupo ativo, contra 8% no grupo sham.

O estudo também trouxe uma informação importante sobre a segurança do tratamento na bipolaridade: não foram observados casos de indução de mania ou hipomania.

Embora os resultados sejam promissores, trata-se de um estudo pequeno, com apenas 24 participantes. Portanto, os achados ainda precisam ser confirmados em amostras maiores e com acompanhamento mais prolongado, para determinar a duração dos efeitos e a melhor forma de aplicar protocolos acelerados na depressão bipolar.

Estudo da Universidade da Califórnia (2025)

Um segundo estudo, realizado na Universidade da Califórnia e publicado no JAMA Network Open em 2025, avaliou um protocolo acelerado de estimulação magnética em pacientes com depressão bipolar resistente ao tratamento. Foram randomizados 13 pacientes: cinco receberam estimulação ativa e oito, sham.

O protocolo foi semelhante ao estudo de 2024, com dez sessões por dia durante cinco dias, totalizando 50 sessões e 90.000 pulsos. O alvo da estimulação foi individualizado por meio de ressonância magnética funcional e análise da conectividade cerebral.

No grupo ativo, 60% dos pacientes apresentaram resposta clínica, contra 12,5% no grupo sham. Entretanto, devido ao pequeno número de participantes, a diferença entre os grupos não atingiu significância estatística.

Esse estudo também não observou casos de mania ou hipomania durante o período de acompanhamento, fornecendo dados preliminares favoráveis sobre a segurança do protocolo.

Assim, já existem dois estudos randomizados e controlados por sham de protocolos acelerados para depressão bipolar, com resultados promissores, mas ainda preliminares devido ao pequeno tamanho das amostras.

Estudo-piloto com localização pelo Beam F3 (2026)

Em 2026, um estudo-piloto publicado na revista Bipolar Disorders avaliou um protocolo acelerado de estimulação magnética em oito pacientes com depressão bipolar resistente ao tratamento. Foram aplicadas oito sessões de iTBS por dia, durante cinco dias, totalizando 40 sessões e 72.000 pulsos. Cada sessão teve duração aproximada de 10 minutos.

O alvo terapêutico foi o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, localizado pelo método tradicional Beam F3, sem utilização de um alvo individualizado por neuroimagem funcional.

A redução dos sintomas foi rápida: a média da escala de Hamilton para depressão (HDRS-17) caiu de 22,9 no início do tratamento para 16,6 no terceiro dia, 12,8 no quinto dia e 11,1 na segunda semana. Na quarta semana, a média era 13,5. Aos três meses, a média foi 13,7, mas a diferença em relação ao valor basal já não alcançou significância estatística.

Não foram observados sintomas de mania ou hipomania durante o período inicial de tratamento e acompanhamento. Um paciente apresentou sintomas de hipomania aos três meses, mas os autores consideraram improvável a relação com o tratamento.

Os resultados sugerem um efeito antidepressivo rápido utilizando um método simples de localização do alvo, sem necessidade de neuroimagem funcional. Entretanto, por se tratar de um estudo aberto, com apenas oito pacientes e sem grupo controle, seus resultados devem ser considerados preliminares. Além disso, a ausência de significância estatística aos três meses reforça a necessidade de estudos maiores para avaliar a duração dos efeitos e estratégias de manutenção.

Protocolo SAINT na depressão bipolar

O protocolo SAINT de estimulação magnética acelerada, desenvolvido originalmente para o tratamento da depressão resistente e reconhecido pelo FDA para depressão maior, também foi estudado em pacientes com depressão bipolar resistente ao tratamento.

Foi realizado um estudo aberto com dez pacientes com transtorno bipolar tipo I, que receberam dez sessões de iTBS por dia, durante até cinco dias consecutivos, totalizando 50 sessões e 90.000 pulsos.

O alvo da estimulação foi individualizado por meio de ressonância magnética funcional e análise da conectividade cerebral.

Os resultados mostraram redução rápida dos sintomas depressivos: 50% dos pacientes apresentaram resposta e 40% remissão imediatamente após o tratamento. Durante o mês seguinte, 60% dos pacientes atingiram critérios de remissão.

Não foram observados casos de indução de mania ou hipomania durante o período inicial de acompanhamento.

O principal objetivo desse estudo foi avaliar a viabilidade e a segurança do protocolo SAINT na depressão bipolar. Os resultados também mostraram eficácia antidepressiva, mas trata-se de um estudo aberto, sem grupo sham, com apenas dez pacientes.

Conclusão

Os estudos disponíveis sugerem que os protocolos acelerados de estimulação magnética podem produzir uma redução rápida dos sintomas depressivos em pacientes com depressão bipolar resistente ao tratamento. Os resultados mais consistentes foram observados em protocolos com múltiplas sessões diárias, tanto quando o alvo foi individualizado por meio de neuroimagem funcional quanto quando foi localizado por métodos mais simples, como o Beam F3.

Até o momento, os dados também são favoráveis em relação à segurança. Nos estudos randomizados e em grande parte dos estudos abertos, não foram observados casos de indução de mania ou hipomania durante o tratamento ou no acompanhamento inicial. No entanto, a ocorrência de sintomas hipomaníacos em um paciente durante o seguimento mais prolongado reforça a necessidade de monitoramento clínico contínuo, especialmente em pessoas com transtorno bipolar tipo I.

Apesar desses resultados promissores, as evidências ainda são preliminares. Os estudos apresentam amostras pequenas, alguns não possuem grupo controle e os períodos de acompanhamento são, em geral, limitados. Além disso, ainda não está definido qual protocolo é mais eficaz, qual método de localização do alvo deve ser preferido, quanto tempo duram os benefícios e quais estratégias de manutenção são necessárias para evitar recaídas.

Portanto, os protocolos acelerados de estimulação magnética representam uma alternativa terapêutica promissora para a depressão bipolar resistente, principalmente quando é necessário obter uma resposta mais rápida.