Homenagem ao Dr. Maximilian Fink

Conheci pessoalmente o Dr. Max Fink no ano de 1999. Já tinha ouvido falar dele muito, conhecia seu influente livro Convulsive Therapy: Theory and Practice (Raven Press, 1979), havia estudado o livro de seu ilustre discípulo, Richard Abrams, ou seja, ele já era uma lenda naquela época. Durante o encontro da Associação Americana de Psiquiatria ocorrido em Washington ele ofereceu um curso de um dia sobre eletroconvulsoterapia e eu me inscrevi. Foi fabuloso. Uma personalidade ao mesmo tempo agradável e simpática mas que sabia ser muito direto e assertivo quando se tratava de dados científicos e fatos históricos.

Ele carregava a herança dos grandes da chamada “psiquiatria biológica” na época. Nos EUA essa tradição foi iniciada por Lothar Kalinowsky (que aprendeu diretamente de Ugo Cerletti e Lucio Bini na Itália), continuada por William Karliner, chegando a Max Fink que a passou adiante com grande competência.

Quando as medicações surgidas nos anos 60-70 eclipsaram parcialmente a eletroconvulsoterapia que passou a ser vista por muitos como “coisa do passado”, representante de uma psiquiatria anacrônica e agressiva, algo que deveria entrar definitivamente para os livros de história da medicina, Max Fink se erguia e questionava: Ainda não! A ECT ainda serve para muitas situações e não deve ser abandonada. Quando os encontros científicos e congressos médicos cresceram com o patrocínio da crescente indústria farmacêutica, os trabalhos sobre ECT eram ignorados. A educação psiquiátrica praticamente aboliu a ECT da formação em muitos programas de residência (nos EUA e em muitos outros países).

Ele foi em muitos aspectos profético: as medicações (pelo menos ainda…) têm limitações em taxa de eficácia, em rapidez de resposta, em efeitos colaterais variados; a ECT não deve ser abandonada enquanto não surgir algo superior. Mesmo no citado encontro da APA, quando a estimulação magnética transcraniana estava surgindo como uma grande promessa de substituta mais leve da ECT, eu vi o Dr. Max Fink participar das palestras e questionar se realmente este tratamento seria tudo o que se esperava. Ainda não…

Dr. Fink deu cursos, publicou livros (Electroshock: Restoring the Mind, Oxford University Press, 1999; Catatonia: A Clinician’s Guide to Diagnosis and Treatment, Cambridge University Press, 2006; Ethics in Electroconvulsive Therapy, Routledge, 2012; The Madness of Fear: A History of Catatonia, Oxford University Press, 2018).

Foi o criador e o primeiro editor da revista científica “Convulsive Therapy”, especializada em trabalhos científicos sobre ECT (atualmente chamada “The Journal of ECT”), fundou a ACT (Association for Convulsive Therapy), sociedade científica com encontros anuais sobre temas afins (atualmente se chama ISEN, International Society for ECT and Neurostimulation).

Enfim, é difícil resumir uma vida dedicada à medicina e ter uma ideia do grau de influência que ele teve na psiquiatria americana e mundial. Todos nós que trabalhamos com procedimentos em psiquiatria lhe devemos algo e fomos tocados por ele de alguma forma.

Onde quer que esteja, Dr. Fink, muito obrigado.

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Maximilian Fink (January 16, 1923 – June 15, 2025). Arauto da ECT