Estimulação Magnética Personalizada: o futuro do tratamento da depressão?
Uma das estratégias mais promissoras para aumentar a eficácia da Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) é a personalização do tratamento. Em vez de estimular o mesmo local do cérebro em todos os pacientes, pesquisadores vêm investigando se diferentes perfis de sintomas depressivos estariam relacionados a circuitos cerebrais distintos e, portanto, responderiam melhor a diferentes alvos de estimulação.
Essa hipótese foi proposta pelo grupo do psiquiatra e pesquisador Shan Siddiqi, que utiliza técnicas avançadas de conectividade cerebral para compreender como diferentes redes neurais estão relacionadas aos sintomas da depressão.
De forma simplificada, os pesquisadores identificaram dois grandes perfis clínicos.
O primeiro é o perfil disfórico, caracterizado principalmente por tristeza intensa, desesperança, perda de interesse ou prazer (anedonia), sentimentos de culpa, baixa autoestima e ideação suicida.
O segundo é o perfil ansiossomático, no qual predominam ansiedade, tensão, irritabilidade, insônia, inquietação e sintomas físicos relacionados à ansiedade, como sensação de aperto no peito, palpitações, tremores e tensão muscular.
A hipótese é que esses dois conjuntos de sintomas dependam, pelo menos em parte, de circuitos cerebrais diferentes. Assim, pacientes com predominância de sintomas disfóricos tenderiam a responder melhor à estimulação do córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, enquanto aqueles com predomínio de sintomas ansiossomáticos poderiam apresentar melhor resposta quando a estimulação é direcionada para uma região mais medial do córtex pré-frontal.
Até pouco tempo, essa proposta era baseada principalmente em estudos de neuroimagem e em análises de conectividade cerebral. Recentemente, porém, essa hipótese foi testada pela primeira vez em um estudo clínico prospectivo e randomizado.
Nesse estudo, pacientes com depressão associada à ansiedade foram distribuídos aleatoriamente para receber 30 sessões de EMT em um dos dois alvos propostos. Os resultados mostraram que ambos os grupos apresentaram melhora significativa da depressão, confirmando que os dois alvos possuem efeito antidepressivo. Entretanto, os pacientes tratados no alvo relacionado ao perfil disfórico apresentaram uma redução proporcionalmente maior dos sintomas depressivos, enquanto aqueles tratados no alvo relacionado ao perfil ansiossomático obtiveram maior melhora dos sintomas de ansiedade.
Esses achados representam um passo importante em direção à chamada neuromodulação de precisão, cujo objetivo é adaptar o tratamento às características clínicas e neurobiológicas de cada paciente, em vez de utilizar exatamente o mesmo protocolo para todos.
Uma forma simples de entender esse conceito é lembrar que a depressão não é uma doença única. Embora dois pacientes possam receber o mesmo diagnóstico, eles podem apresentar manifestações muito diferentes. Alguns sofrem principalmente com tristeza profunda, perda de prazer e desesperança. Outros apresentam ansiedade intensa, irritabilidade, insônia e sintomas físicos como principais queixas. É possível que essas diferenças reflitam alterações em circuitos cerebrais parcialmente distintos, o que abre espaço para tratamentos mais individualizados.
No futuro, a escolha do alvo de estimulação poderá levar em consideração não apenas o diagnóstico de depressão, mas também o perfil predominante de sintomas de cada paciente. Isso poderá aumentar a precisão do tratamento, melhorar as taxas de resposta e remissão e reduzir o tempo necessário para alcançar uma melhora clínica significativa.
Apesar do grande entusiasmo, é importante destacar que essa estratégia ainda é considerada uma abordagem em desenvolvimento. Os estudos publicados até o momento envolveram um número relativamente pequeno de participantes e os resultados ainda precisam ser reproduzidos por outros grupos de pesquisa antes que essa forma de personalização seja incorporada como padrão na prática clínica.
Ainda assim, esses avanços demonstram claramente a direção para a qual a EMT está evoluindo: um tratamento cada vez mais individualizado, baseado na compreensão dos diferentes circuitos cerebrais envolvidos na depressão. Em vez de tratar todos os pacientes da mesma forma, a tendência é que, no futuro, pessoas com depressão predominantemente disfórica possam receber um alvo de estimulação diferente daquelas cuja depressão apresenta um componente ansioso mais intenso, tornando o tratamento mais preciso e potencialmente mais eficaz.