Protocolos Acelerados de Estimulação Magnética Transcraniana para Depressão
Os protocolos tradicionais de estimulação magnética transcraniana (EMT) costumam utilizar diferentes frequências, como 1 Hz, 5 Hz, 10 Hz ou 20 Hz, e geralmente são realizados uma vez ao dia, durante várias semanas.
Já os protocolos acelerados de EMT costumam realizar várias sessões no mesmo dia, concentrando o tratamento em um período mais curto, na tentativa de acelerar a resposta terapêutica.
Essa estratégia pode ser relevante para pacientes com depressão resistente ao tratamento ou quando existe necessidade de uma intervenção terapêutica mais rápida.
Além disso, concentrar o tratamento em poucos dias pode facilitar a adesão de pacientes que têm dificuldade de comparecer diariamente durante quatro a seis semanas.
Estimulação theta-burst intermitente (iTBS)
Os protocolos acelerados utilizam a estimulação theta-burst intermitente (iTBS), uma modalidade de EMT que utiliza um padrão específico de pulsos organizados em pequenas rajadas. Na iTBS, são aplicadas salvas de três pulsos a 50 Hz, repetidas a uma frequência de 5 Hz.
Uma das principais vantagens da iTBS é que uma sessão pode ser realizada em poucos minutos, permitindo concentrar várias sessões ao longo do mesmo dia.
Protocolo SAINT (Stanford Neuromodulation Therapy)
O protocolo pioneiro é conhecido como Stanford Accelerated Intelligent Neuromodulation Therapy (SAINT), posteriormente chamado de Stanford Neuromodulation Therapy (SNT).
O protocolo aplicou 10 sessões de iTBS por dia, com duração de cerca de 10 minutos, durante 5 dias, totalizando 50 sessões, com localização individualizada do alvo baseada em ressonância magnética funcional.
90,5%
Ao final do tratamento, 90,5% dos participantes atingiram remissão.
Apesar dos resultados promissores, o estudo foi aberto, sem grupo controle, e incluiu apenas 21 pacientes.
Estudo controlado de Cole et al. (2021)
Em 2021, Cole et al. publicaram um estudo duplo-cego, randomizado e controlado por sham. A taxa de resposta no grupo ativo foi de 85,7% e remissão de 78,6%, contra 26,7% e 13,3%, respectivamente, no grupo sham.
Após 4 semanas do tratamento, 69,2% permaneciam em resposta e 46,2% em remissão no grupo ativo.
O estudo demonstrou superioridade do tratamento ativo em relação ao sham, embora tenha sido pequeno, com apenas 29 pacientes.
A ideia de obter uma resposta antidepressiva rápida, em apenas cinco dias de tratamento, despertou grande interesse.
Reconhecimento do FDA
2022
Em 2022, o protocolo SAINT foi reconhecido pelo FDA para o tratamento do transtorno depressivo maior resistente ao tratamento.
Protocolo SWIFT
Em 2025, o FDA reconheceu outro protocolo acelerado, denominado SWIFT (Short-course with Intrinsic Field Targeting), desenvolvido pela BrainsWay para o tratamento do transtorno depressivo maior, inclusive com ansiedade associada.
O protocolo utiliza iTBS e, na fase aguda, são realizadas cinco sessões por dia durante seis dias. Cada sessão dura cerca de 10 minutos.
O tratamento de manutenção, é realizado com duas sessões no mesmo dia, uma vez por semana, durante quatro semanas, totalizando 38 sessões.
No estudo multicêntrico o protocolo SWIFT apresentou taxa de resposta de 87,8% e taxa de remissão de 78,0%, em comparação com 87,5% de resposta e 87,5% de remissão no protocolo tradicional.
O protocolo não requer ressonância funcional ou neuronavegação para definição do alvo.
O estudo demonstrou não inferioridade do protocolo acelerado em relação ao tratamento convencional, com a vantagem de concentrar a fase inicial do tratamento em um período menor.
83%
Além disso, o acompanhamento de 12 meses mostrou que 83% dos pacientes permaneciam em remissão.
Protocolo acelerado pragmático
Outro protocolo que merece destaque é o chamado protocolo acelerado pragmático, desenvolvido por Harold A. Sackeim e equipe.
O objetivo principal foi avaliar um protocolo mais simples e acessível na prática clínica.
No estudo piloto, foram realizadas 36 sessões de iTBS ao longo de cinco dias, utilizando o posicionamento convencional da bobina, sem necessidade de neuronavegação e neuroimagem.
Os resultados foram promissores, com 55% de remissão, 70% de resposta e 75% dos pacientes assim se mantiveram após quatro semanas.
Apesar dos resultados promissores, trata-se de um estudo piloto, com amostra limitada e sem grupo controle.
Os resultados desses estudos indicam que protocolos acelerados podem ser eficazes mesmo utilizando uma estratégia de posicionamento mais simples e acessível, sem necessidade de individualização do alvo por neuroimagem.
| Protocolo | Esquema de sessões | Localização do alvo | Resultados |
|---|---|---|---|
| SAINT / SNT (Stanford) | 10 sessões/dia × 5 dias (50 sessões), cerca de 10 minutos cada | Individualizada, baseada em ressonância magnética funcional | Estudo aberto (21 pacientes): 90,5% de remissão · Cole et al., 2021 (29 pacientes): 85,7% de resposta e 78,6% de remissão, contra 26,7% e 13,3% no grupo sham |
| SWIFT (BrainsWay) | Fase aguda: 5 sessões/dia × 6 dias · Manutenção: 2 sessões no mesmo dia, 1 vez por semana, por 4 semanas (38 sessões) | Sem ressonância funcional ou neuronavegação | 87,8% de resposta e 78,0% de remissão (não inferior ao protocolo tradicional) · 83% em remissão após 12 meses |
| Acelerado pragmático (Sackeim e equipe) | 36 sessões de iTBS ao longo de 5 dias | Posicionamento convencional da bobina, sem neuronavegação e neuroimagem | Estudo piloto: 55% de remissão e 70% de resposta; 75% se mantiveram após quatro semanas |
O que esses protocolos têm em comum?
Em comum, esses protocolos partem do princípio que a repetição intensiva da estimulação pode favorecer uma “janela de plasticidade”, potencializando mudanças nos circuitos cerebrais envolvidos na regulação do humor.
Por isso, várias sessões são realizadas no mesmo dia, buscando promover adaptações neuroplásticas em um período mais curto.
Entretanto, a relação entre a intensidade da estimulação, a neuroplasticidade e a velocidade da resposta clínica ainda está sendo estudada. Fazer mais sessões em menos tempo não significa necessariamente que todos os pacientes terão uma resposta mais rápida ou mais intensa. Em alguns pacientes, a resposta pode continuar se desenvolvendo nos dias ou semanas seguintes ao tratamento.
Outra diferença importante entre os protocolos está na necessidade de tecnologias para localização individualizada do alvo.
Alguns protocolos, como o SAINT, utilizam localização do alvo baseada em conectividade funcional e ressonância magnética. Outros utilizam métodos de localização mais simples, o que pode ser mais fácil de implementar na prática clínica.
Conclusão
Os protocolos acelerados são uma evolução importante na utilização da estimulação magnética para o tratamento da depressão. Os resultados são promissores e mostram respostas clínicas significativas.
Protocolos acelerados
Os protocolos acelerados têm reconhecimento do FDA para depressão resistente, reduzem o tempo do tratamento, facilitam a adesão e são principalmente úteis quando se faz necessária uma intervenção mais rápida.
Protocolos convencionais
Já os protocolos convencionais, são realizados durante várias semanas, já têm a eficácia bem estabelecida e são amplamente utilizada no tratamento da depressão, principalmente quadros leves a moderados e pouco resistentes.
Ambas as técnicas têm sua utilidade na prática clínica, e a escolha entre o protocolo convencional e o acelerado deve considerar as características e as necessidades de cada paciente.